Sexta-feira

Além de estropiadinha da coluna, com uma crise de ciática, ia hoje passar o fim de semana a "casa" e já não vou. O Gabriel está doente, com febre alta e tosse. Foi à médica ontem para marcar umas análises (para perceber o porquê de ter os gânglios linfáticos alterados há uns meses valentes... ai), mas só demos conta que estava a começar a ter febre quando chegamos a casa. A coisa má que aqui pousou está para durar. O meu filho está a pedir-me beijos e não há coisa ruim que sobreviva ao amor. Ora toma, porca!

Quinta-feira

Curtas

1-O Medina Carreira é que a sabe toda ao questionar para quê tanto aparato à volta do "Face Oculta" se nunca "nenhum notável vai para a prisão".

2- Tenho um pijama com uma pegada de cão nas costas.

3-Diz a jormnalista da Sic: Dois holandeses na casa dos 50 encalharam não sei onde. Um tinha 34 anos e o outro 51. Ora, apesar de eu sempre ter sido uma nulidade a estatística, sei que "na casa dos 50" é uma grande aldrabice. Ou isso ou eu estou a um ano ser ser cinquentona e não sabia.

4- Li o artigo da Visão segundo o qual 75% das doenças da última década são causadas pelos animais mortos (e baratos) que comemos. Se já andava arrepiada, ainda mais fiquei. Para que conste, a minha mãe foi literalmente proibida de comer porco e vaca e, raramente, pode comer carnes brancas. Consome peixe com alguma moderação e tem carta branca às frutas e legumes. O açúcar foi substituído pela frutose, o sal só marinho e aprendem-se mil e uma maneiras de os cozinhar. Cá em casa, também ganhamos força numa opção já tomada: os miúdos não comem carnes vermelhas e os lacticínios vão ser reduzidos porque os leites que por aí andam são, segundo os médicos, muito mauzinhos. O Gabriel já passou para o leite de soja; falta a Clara. Temos comido strogonoff, chili, feijoada branca, empadões (tudo com soja) e esta noite vou fazer, pela primeira vez, panados de soja. Não sou muito apreciadora de Seitan e Tofu, mas hei-de arranjar forma de os cozinhar ao nosso gosto. Quantos portugueses não sonharão com a sua hortinha e produção biológica?

5- Até ao fim deste mês, a minha vida vai dar uma reviravolta. Ou eu é que vou dar uma reviravolta à minha vida.

6- Dentro de dois anos, o mais tardar, regresso às origens. Definitivamente, a vida está a empurrar-me e nem sempre à custa de conselhos sábios (é mais à custa de pontapés).

7- A Clara já diz os "éles" e é uma galhofa ouvi-la a dizer "aquilllo" e a cantar o "Milllo".

8- O Bi não diz os "éles", mas agora chama-nos feios. "Olá feio". "Olá feia". Parvoíces de gajo. E eu já lhe ensinei que quando os colegas chamarem as meninas de feias, ele que diga "olá linda", "olá princesa", "olá bonita", que as mulheres têm de ser tratadas nas palminhas. Filho, agradeces-me daqui a uns anos.

9- A Clara porta-se 75% bem e 25% mais ou menos. O Bi porta-se 75% mal e 25% mais ou menos.

10- Os meus filhos são os dois beijoqueiros e meigos. Temos dormido os três na mesma cama, porque ando a treiná-los a dormirem juntos (para a Clara passar para o quarto do irmão). E toda a mãe sabe como é bom dormir com os nossos filhos.

11- Vou passar o Natal na casa da minha mãe, embora este ano fosse nos sogros. Fico imensamente feliz porque Natal, Natal, é na minha casa e em mais nenhuma.

12- Estou a sofrer de palavrose aguda, na medida em que só me apetece escrever, escrever e escrever, apesar de ter de me ir embora. Há uma liberdade muito grande em escrevermos só para actualizar um blogue. Essa liberdade consiste em não esperar que nos leiam ou nos comentem.

Este blogue

reabre essencialmente porque preciso dele. Sem ele, escrevo menos. E eu quero escrever sempre sobre os meus filhos e as minhas coisas. Além disso, estou a fazer um esforço para não ceder à tentação do consumo rápido. O Facebook é viciante, permite-nos estar mais perto dos amigos, mas, convenhamos, é fast information. Oca e efémera. Puro entretenimento. Aos poucos, os blogues vão tendo muito menos visitantes; outros vão fechando. A pressa, a maldita pressa, também nos está a fazer procurar coisas que tenham a maior diversidade num espaço confinado, que, de preferência, não nos faça pensar muito. Nenhuma de nós conseguirá deixar de ir espreitar o Facebook, até outra ferramenta mais aliciante aparecer. Mas temos de ser sinceras, o percurso contrário seria muito melhor para a nossa saúde mental. Tomar as rédeas ao tempo, apreciá-lo devagarinho, ocupar o tempo com coisas que nos enriqueçam e nos façam pensar. Estou a ser lírica, eu sei. Já é costume. Muitas vezes escrevo sobre um mundo ideal e não um real. Daí que ser sonhadora é o meu pior defeito.
A única coisa que verdadeiramente me impressiona no Facebook e outros que tais é a velocidade com que as horas se escoam, sem que tenhamos dito ou feito nada de especial, além de nos estarmos a divertir. Concluo que, por isso, que é mesmo uma questão de opção. Podemos ir e não ir. Ir só às vezes. Ir nunca. Ir e ir e ir. Cada um faz aquilo que quer fazer com o seu tempo. E eu estou seriamente a pensar em dar o meu.

Uma vez mais

Tenho frio. Um frio miudinho. Congelei todos os textos que escrevi durante esta temporada porque os considero parte de um processo idêntico à fisiologia processada dentro do nosso corpo. Há sempre qualquer coisa nascida da dor. Normalmente vêm ao de cima as melhores coisas de cada um, depois de dias e dias a caminhar sobre lama. Quando uma tragédia nos bate à porta, primeiro choramos, ficamos em choque, depois o mundo muda de cor. O meu mundo mudou para amarelo escuro e foi-se esbatendo, ao ponto de as pessoas me parecerem desenhos velhos delas mesmas. Fiquei com os ouvidos tapados por uma névoa e ouvia os meus próprios passos como ecos. A cabeça lateja, dói-nos o corpo, ferem-nos as palavras, ferem-nos os silêncios, ferem-nos as ausências e as presenças. Em suma, não sabemos o que queremos nem onde queremos estar. Só sabemos que queremos que os dias passem devagar, mas suficientemente depressa para levar a dor. Até que o corpo reage e, mesmo chovendo lá fora, as cores começam a voltar, animadas pela força que cada ser humano tem para sobreviver. E chega a esperança, define-se a fé, sustemo-nos nos outros e na certeza que a vida é mesmo assim, estranha e imprevisível. Que o que é hoje, não o será amanhã. Há fases que vêm para nos revirar a vida do avesso. Andamos com tudo ao frio, à chuva, ao léu, à mercê, até percebermos que não somos mais do que fragilidades somadas. E voltamos a construir, peça a peça, um novo mundo. Um mundo que seja melhor para nós, para os outros, um espaço qe doa menos, que seja mais belo, mais coeso. No fundo, o que chega com o sofrimento e com as desilusões é que se muda o mapa da vida. A percepção que temos dela. O que sempre foi rosa pálido passa, num momento, a pergaminho. Num segundo. Passado o embate, cada um decide o que quer continuar a ver e luta para emergir. O meu espaço vem recuperando cores porque a minha mãe tem força, tem amigas, tem mimo, tem apoio, está a ser bem acompanhada. Também ela está a reaprender a caminhar. Também ela está a redesenhar a sua percepção do que a rodeia. Porque quem vê a morte de frente, ou a perspectiva dela, muda sempre qualquer coisa dentro de si. A nossa opção foi reforçar o amor, apreciar mais os momentos em que estamos juntas, sermos mais mães, mais filhas, sermos mais irmãs, mais amigas, mais solidárias, termos ainda mais fé e vivermos com mais esperança. A nossa vida e o nosso mundo é a forma como o vemos e vivemos. Se era preciso isto para mudarmos? Pois com certeza que sim.


*E eu volto, volto sempre, pelos vistos.

Quarta-feira

Mapá

É como ela nos chama, às vezes. De dedo no ar:

Não,não, não bates à mamã, mapá!

Terça-feira

A Clara

chama-nos carecas e bebés. E pergunta "on vais?" quando me levanto da cama.
 
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