Sexta-feira

Conversas à Bi

- Mãe, queres casar comigo e ter dez filhos?

- Acho que não, filho. Quando tiveres idade para casar, já a tua mãe está velha (lol).

- Eu adoro a ti. Quero namorar contigo quando for grande.

- Pois...

- Mas tenho um proglema... Tenho medo que vás embora e o mundo destrói...

- Destrói como?

- Quando começarem a cair pedras do espaço em cimas das casas...


*Tenho de o proibir de conversar com o pai.

A Clara

foi ontem fazer mais um raio x porque voltou a fazer uma febrezita. Ainda não está boa. O médico que nos atendeu diz que ela precisava de ter tomado uma dose mais alta de antibiótico. Foi uma semana praticamente perdida. Quando julgo que as coisas estão a melhorar, mais uma rasteira. Foi por isso que desisti deste blogue. Não queria fazer dele um espaço de queixas. Fazem parte da vida, mas cansam tanto, tanto, tanto, que, por vezes, sinto que a vida tem mais de mau do que de bom. Ouço-a lá dentro a tossir enquanto dorme e só peço que ela fique boa depressa. Depressa, depressa...

Quinta-feira

Do verbo nicar

Descobri que não há nada de romântico no facto de ser sempre ele a arrumar a loiça da máquina. É que no trajecto bancada- máquina, eu parto as asas todas das chávenas e nico os pratos e os copos. Devo andar com a visão periférica avariada.

Quarta-feira

Referendo gay

Façam um referendo para ver se eu concordo com o referendo e votarei não. Que direito têm uns de decidir sobre a vida de outros, ainda para mais num País onde os homens másculos coçam as peças em público para mostrar a virilidade? E cospem para o chão, como se fosse uma coisa óbvia, natural, normal? Depois há aquela horda de libelinhas abatinadas sempre à espera de um motivo para defender a moral e os bons costumes. Já para não falar dos moderninhos. Os moderninhos também me irritam. Deixem as pessoas casar, porque sim. Porque se amam, porque precisam, porque querem. Quem achar que tem uma palavra a dizer sobre isso, precisa de arranjar uma vida própria. A sério. Porque eu não tenho nada a ver com isso, a não ser que um dia me apeteça casar com alguém do mesmo sexo. E pode apetecer, sei lá eu bem.

Para que conste à própria

A minha amiga Beta é a melhor de todas as amigas do mundo. É a melhor de todas as amigas, de entre as melhores amigas de toda a gente. A minha amiga Beta é como uma irmã. É como, não. É minha irmã. E acho que é dela que vou ter mais saudades, quando me for embora. Ela é a cola que manteve sempre unidos outros amigos. Que raramente reclama ou se zanga connosco, mesmo quando somos parvos. Que perdoa as ausências e nunca diz não a um convite. A minha amiga é só minha. Desde há 14 anos, quando veio morar comigo numa dessas casas de gajas universitárias chatas, mostrou logo que estava escrita a nossa amizade. Passamos muitas coisas boas juntas. Delirantes, tristes, malucas, ternas, felizes. A minha amiga Beta é tia dos meus filhos e adora-os. Sei que é recíproco porque, quer o Bi como a Clara, perguntam pela Beta, sempre que se lembram. Ainda há dias, a mais nova perguntou-me: "Mãe, a Bata? A Bata? A Bata é minha, mãe!". É mesmo. É toda nossa.

As mudanças

dão-me um friozinho na barriga, confesso. Pensar que daqui a uns meses, vou recomeçar a vida numa outra cidade, dá-me alento e energia. Escolher casa, encontrar um ninho, rever os sítios da minha vida, estar perto da família. Mudar porque a vida assim o quis. Digo-o com toda a propriedade e entendimento. A minha história aqui acabou. É algo que se sente e faz sentido. Dói até que constatemos isso e o aceitemos serenamente. A nossa decisão está tomada. Guardo as lágrimas de saudades lá mais para o fim da vida, quando me recordar desta terra que tanto amo. Não vou recomeçar do zero, muito pelo contrário. Levo a mala a abarrotar de coisas. Coisas boas e más. Mais coisas boas do que más. Muitas mais.
 
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